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Há algo de curioso no hype

Nos últimos meses eu e muitos dos que tentam estar por dentro do que tem sido publicado e tomado notoriedade no mercado editorial, ouvimos falar sobre Uma Vida Pequena, da Hanya Yanagihara, um livro que foi finalista dos prêmios Man Booker Prize, de 2015, em 6° lugar, e National Book Award, em 5º. Um livro de capaz bonita, que estampa a  fotografia de Peter Hujar, que faz parte de uma série sobre homens e orgasmos ; um livro também longo: na edição brasileira, da Editora Record, olhamos para um calhamaço de 783 páginas; também um livro que trata sobre a dor física e psicológica, a amizade, carreira profissional e família. Em seu aspecto família, o livro merece elogio ao nos mostrar uma perspectiva de família que é entendida também formada pelos amigos mais íntimos, com os quais temos relações mais estreitas. Teoricamente, um bom livro, se levarmos em conta o que ele pretende. Entretanto, enquanto experiência literária, um livro ruim, que não desenvolve das melhores formas o

#DesafioLivrosBr: A Paixão Segundo G.H, Clarice Lispector e um breve esboço sobre o Feminismo em sua obra.

Encontro duas formas de escrever sobre A Paixão Segundo G.H (Rocco, 2009. 180 páginas), o livro que escolhi para o mês de março do #DesafioLivrosBR. A primeira é descrevendo o plano de fundo dentro da qual o fluxo de consciência se encaminha, destacando alguns elementos chave que aparecem até a ação final. Seria assim: G.H é uma mulher da alta classe brasileira (sua nacionalidade está explícita no texto), moradora de uma cobertura. É uma manhã e a empregada da casa foi embora. G.H, então, decide ir até o quarto da empregada, onde esperava encontrá-lo bagunçado, surpreendendo-se depois com a organização que ele apresenta, deixada pela empregada. É dentro do quarto que acontecem os mais intensos conflitos expressos através da narradora. A segunda, e esta é um desafio, é uma tentativa de ensaiar sobre alguns elementos que fazem de A Paixão Segundo G.H  a novela que é. G.H, segundo aponta Boris Fausto, em História Concisa da Literatura Brasileira , significa Gênero Humano. Mui

"Que mistério tem Clarice?"

     Isto é uma não crítica que tem como propósito ser crítica.    Assim como a leitura de Antologia Poética de Drummond, referente ao #DesafioLivrosBR se mostrou muito mais longa do que eu supunha que fosse, a leitura de Todos Os Contos de Clarice também mostrou muito mais breve do que eu também supunha. Se por um lado a poesia demandou um ritmo também poético - cada poema sendo degustado e digerido em seu tempo, de modo que a qualidade ficasse resguardada diante da pressa pelo número de livros que eu, nós, desejamos ler -, os contos de Clarice se mostraram muito como uma retrospectiva de minha vida. É que a escritora está atrelada em momentos de minha adolescência com a lembrança de casas onde morei, no decorrer de minhas várias mudanças.     Durante a leitura parece que pomos nos olhos as lentes com as quais os escritores enxergam - seu estilo, pelo menos, é carregado conosco. Comigo, ao menos, é assim. E daí me vi assustado, surpreso quando descobri no meu bairro uma

Obsessão, um conto de Clarice sobre a emancipação de uma mulher

    Iniciei um projeto de leitura de um conto por dia esta semana com a coletânea Todos os Contos, de Clarice Lispector organizado pelo Benjamin Moser, e Contos de Imaginação e Mistério, de Edgar Allan Poe. Essas companhias que tenho tido antes de dormir, desde quando iniciei o projeto, tem me feito perder o sono. Talvez eu deva mudar o horário da leitura dos contos. Um deles, que me deixa insone, é " Obsessão ", o segundo conto de Clarice na seção Primeiras Histórias, escrito aproximadamente aos vinte anos de idade.    Trata-se da história de formação de Cristina, a narradora do conto, que se nos apresenta uma infância comum a infância de uma menina de sua época - "Até que um dia descobriram em mim uma mocinha, abaixaram meu vestido, fizeram-me usar novas peças de roupa e consideraram-me quase pronta" - Esta prontidão certamente é para o tradicional rumo das mulheres: logo, Cristina se casa com Jaime, um homem comum, que lhe traz chocolates durante as vis

#DesafioLivrosBR Janeiro: Caetés, de Graciliano Ramos ou Como ler ficção?

   Atualmente estou começando o #DesafioLivroBR, proposto pelo site 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer , e o item referente ao mês de Janeiro é "Livro de Estreia". Escolhi Caetés , de Graciliano Ramos. Outro dia talvez eu escreva algo sobre o livro. Agora quero apenas levantar alguns apontamentos que me vieram entre minha última leitura que finalizei ontem, que foi de O Lugar Sem Limites  (Cosac Naify, 2013) , de José Donoso, e de minha atual, que comecei hoje.     Eu, como muitos outros viciados (qual outro termo seria mais preciso?) em Literatura pensamos constantemente em livros e o que os circundam - seus autores, as editoras, as traduções, críticas, etc - e diante de um campo vastíssimo de tantos outros leitores donos de blogs e vlogs sobre leituras, percebi a sede atarantada pelo número de livros lidos. A-quantidade-de-livro-lidos é um pensamento que habita de vez em quando o imaginário de todo leitor compulsivo. Seja pela insuperável injustiça

Falando sobre Katherine Mansfield (e Virgínia Woolf)

Katherine Mansfield e Virgínia Woolf .    As minhas últimas leituras de 2016 foram todas de escritoras. Duas de minhas prediletas, aliás: Virgínia Woolf e Katherine Mansfield. Há mais coisas em comum as duas do que apenas o estilo: conheceram-se e foram amigas; trocaram correspondências e críticas sobre suas escritas. Em dado momento, Virgínia confessou: "Eu tinha inveja de sua escrita. A única coisa que já invejei"; por outro lado, Katherine confessava: "Eu me sinto orgulhosa da escrita de Virgínia". Aos fãs de Virgínia que ainda não conhecem a prosa de Katherine, imaginem aí o peso de ter uma qualidade invejável por Virgínia Woolf. Entretanto, esta inveja não era, para Woolf, imagino, uma forma de rivalidade: ambas tinham suficiente consciência sobre as questões feministas que brotavam em suas épocas  - e em suas escritas - para não caírem no jogo da rivalidade. Uma presava bastante a opinião a outra: Antonio Bivar cita, no prefácio de O quarto de Jacob

Os anos, de Virginia Woolf, e O Prazer do Texto, de Roland Barthes

   Para Roland Barthes, em O Prazer do Texto, há uma diferença entre o texto de prazer e texto de fruição. O texto de prazer é "aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável de leitura (BARTHES, 1996, p. 20-21). E o texto de fruição é "aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta [...], faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem". (BARTHES, 1996, p. 21).   Virgínia Woolf (1882 - 1941), em Os Anos (1937), chega com precisão ao auge daquilo que passou a construir desde O quarto de Jacob (1922): um estilo novo de escrita, que tinha a pretensão de explorar os meandros, as profundezas da psicologia dos personagens, dos costumes de sua época, das relações de gênero e de classes guiados por um fluxo de consciência, na qual a perspectiva prin