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A bomba, o espirro: uma resenha escrita em tempos de pandemia.

“É terrível a existência de duas retas paralelas: pois elas nunca se encontram e apenas se cruzam no infinito” . - Matilde Campilho Virgínia Woolf, desde seu quarto romance, O Quarto de Jacob, propõe uma mudança na estrutura do romance que diferente da clássica. A modernização que ela causa com sua literatura inaugura uma nova forma de encarar um texto para o leitor. Por tais motivos, Virgínia é uma autora que não apenas costuma ser, mas deve ser relida. Justifico: uma primeira leitura de Mrs. Dalloway não raro é atravessada por um espanto, um fascínio causado pela estrutura e estilo da escrita. É antes por essa experiência do que pela compreensão que o atravessamento da leitura feita por alguém que esteja iniciando seu percurso em suas obras se dá.  A forma única com que Virgínia constrói seu texto pode ser a primeira vista estranha, pois cobra  uma outra lógica para entende-lo. A primeira leitura então e a de um encontro - e esse encontro, ele se dá ou não. Muitos leitores, ...

Dar ao indizível um nome

Maurice, romance do britânico E. M Forster, foi escrito entre 1913 e 1914, à sombra da Era vitoriana, período marcado pelo contraste entre a modernização científica e um forte moralismo sexual devido ao fundamentalismo religioso. Por se tratar de um romance de formação sobre os anos de juventude de um personagem homossexual, Forster teve a esperteza de guardá-lo com recomendações de ser publicado somente após sua morte, em 1971. O romance não trata de um sujeito com problemas com sua sexualidade, mas um sujeito em uma sociedade que tem problemas com a homossexualidade - e seu atravessamento no romance se dá a partir disso. A era vitoriana, período que marca os anos em que o romance se passa, embora marcada por uma modernização científica, foi também um período de forte moralismo sexual devido ao fundamentalismo religioso. Nenhum ambiente da esfera social tolerava “o vício indizível dos gregos”, como é chamada a homossexualidade no romance de Forster. Maurice e Clive se apaixonam na uni...

Há algo de curioso no hype

Nos últimos meses eu e muitos dos que tentam estar por dentro do que tem sido publicado e tomado notoriedade no mercado editorial, ouvimos falar sobre Uma Vida Pequena, da Hanya Yanagihara, um livro que foi finalista dos prêmios Man Booker Prize, de 2015, em 6° lugar, e National Book Award, em 5º. Um livro de capaz bonita, que estampa a  fotografia de Peter Hujar, que faz parte de uma série sobre homens e orgasmos ; um livro também longo: na edição brasileira, da Editora Record, olhamos para um calhamaço de 783 páginas; também um livro que trata sobre a dor física e psicológica, a amizade, carreira profissional e família. Em seu aspecto família, o livro merece elogio ao nos mostrar uma perspectiva de família que é entendida também formada pelos amigos mais íntimos, com os quais temos relações mais estreitas. Teoricamente, um bom livro, se levarmos em conta o que ele pretende. Entretanto, enquanto experiência literária, um livro ruim, que não desenvolve das melhores forma...

#DesafioLivrosBr: A Paixão Segundo G.H, Clarice Lispector e um breve esboço sobre o Feminismo em sua obra.

Encontro duas formas de escrever sobre A Paixão Segundo G.H (Rocco, 2009. 180 páginas), o livro que escolhi para o mês de março do #DesafioLivrosBR. A primeira é descrevendo o plano de fundo dentro da qual o fluxo de consciência se encaminha, destacando alguns elementos chave que aparecem até a ação final. Seria assim: G.H é uma mulher da alta classe brasileira (sua nacionalidade está explícita no texto), moradora de uma cobertura. É uma manhã e a empregada da casa foi embora. G.H, então, decide ir até o quarto da empregada, onde esperava encontrá-lo bagunçado, surpreendendo-se depois com a organização que ele apresenta, deixada pela empregada. É dentro do quarto que acontecem os mais intensos conflitos expressos através da narradora. A segunda, e esta é um desafio, é uma tentativa de ensaiar sobre alguns elementos que fazem de A Paixão Segundo G.H  a novela que é. G.H, segundo aponta Boris Fausto, em História Concisa da Literatura Brasileira , significa Gênero Humano....

"Que mistério tem Clarice?"

     Isto é uma não crítica que tem como propósito ser crítica.    Assim como a leitura de Antologia Poética de Drummond, referente ao #DesafioLivrosBR se mostrou muito mais longa do que eu supunha que fosse, a leitura de Todos Os Contos de Clarice também mostrou muito mais breve do que eu também supunha. Se por um lado a poesia demandou um ritmo também poético - cada poema sendo degustado e digerido em seu tempo, de modo que a qualidade ficasse resguardada diante da pressa pelo número de livros que eu, nós, desejamos ler -, os contos de Clarice se mostraram muito como uma retrospectiva de minha vida. É que a escritora está atrelada em momentos de minha adolescência com a lembrança de casas onde morei, no decorrer de minhas várias mudanças.     Durante a leitura parece que pomos nos olhos as lentes com as quais os escritores enxergam - seu estilo, pelo menos, é carregado conosco. Comigo, ao menos, é assim. E daí me vi assustado, surp...

Obsessão, um conto de Clarice sobre a emancipação de uma mulher

    Iniciei um projeto de leitura de um conto por dia esta semana com a coletânea Todos os Contos, de Clarice Lispector organizado pelo Benjamin Moser, e Contos de Imaginação e Mistério, de Edgar Allan Poe. Essas companhias que tenho tido antes de dormir, desde quando iniciei o projeto, tem me feito perder o sono. Talvez eu deva mudar o horário da leitura dos contos. Um deles, que me deixa insone, é " Obsessão ", o segundo conto de Clarice na seção Primeiras Histórias, escrito aproximadamente aos vinte anos de idade.    Trata-se da história de formação de Cristina, a narradora do conto, que se nos apresenta uma infância comum a infância de uma menina de sua época - "Até que um dia descobriram em mim uma mocinha, abaixaram meu vestido, fizeram-me usar novas peças de roupa e consideraram-me quase pronta" - Esta prontidão certamente é para o tradicional rumo das mulheres: logo, Cristina se casa com Jaime, um homem comum, que lhe traz chocolates durante as vis...

#DesafioLivrosBR Janeiro: Caetés, de Graciliano Ramos ou Como ler ficção?

   Atualmente estou começando o #DesafioLivroBR, proposto pelo site 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer , e o item referente ao mês de Janeiro é "Livro de Estreia". Escolhi Caetés , de Graciliano Ramos. Outro dia talvez eu escreva algo sobre o livro. Agora quero apenas levantar alguns apontamentos que me vieram entre minha última leitura que finalizei ontem, que foi de O Lugar Sem Limites  (Cosac Naify, 2013) , de José Donoso, e de minha atual, que comecei hoje.     Eu, como muitos outros viciados (qual outro termo seria mais preciso?) em Literatura pensamos constantemente em livros e o que os circundam - seus autores, as editoras, as traduções, críticas, etc - e diante de um campo vastíssimo de tantos outros leitores donos de blogs e vlogs sobre leituras, percebi a sede atarantada pelo número de livros lidos. A-quantidade-de-livro-lidos é um pensamento que habita de vez em quando o imaginário de todo leitor compulsivo. Seja pela insuper...